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Amy, a artista

O documentário é sobre ela e o universo comunicacional que habitamos hoje. Mas depois há ainda a artista, a cantora, a compositora ou letrista, que abriu portas a outros.

O seu sucesso não só abriu as portas a outros cantores do centro do mercado como contribuiu para a reabilitação da soul junto das franjas DR

O documentário centra-se na vida atribulada da cantora e no contexto que a envolveu. Essa é aliás uma das grandes diferenças em relação a outras figuras atormentadas da música popular, algumas delas também falecidas na juventude, de Ian Curtis (Joy Division) a Kurt Cobain (Nirvana), de Nick Drake a Janes Joplin.

Ela foi a primeira celebridade da música da era da internet: acompanhámos em directo os seus passos até ao cadafalso. Não fomos apenas espectadores passivos, fomos também actores interactivos dessa realidade que desencadeou uma pressão mediática de características novas. Nesse sentido, o filme é tanto sobre ela, como sobre o universo comunicacional que habitamos hoje, e menos sobre a artista, cantora, compositora ou letrista.

Isso acontece por opção do realizador. Mas a verdade é que, artisticamente, Amy Winehouse nunca recolheu consenso, havendo muita gente que se interroga sobre o seu legado para a música.

Essas dúvidas existem porque no início da carreira – e isso o filme aborda ao de leve – foi encarada como cantora pop descartável, em parte porque descoberta por Simon Fuller (que engendrou o fenómeno Spice Girls). Em segundo lugar porque deixou apenas dois álbuns e o póstumo Lioness: Hidden Treasures (2011).

No início dizia-se que a sua voz e música eram semelhantes à de outras jovens cantoras que surgiram na mesma altura, de Norah Jones a Joss Stone, mas o tempo viria a evidenciar o erro. A verdade é que poucas vezes, nas últimas décadas, o centro do mercado acolheu cordas vocais tão potentes, capazes de expelir misérias com tanta sinceridade. Como alguém expõe no documentário, tinha uma alma vivida num corpo jovem.

A soul mais física recuperou a juventude perdida – graças a Amy e ao produtor Mark Ronson Andy Ford

Há três anos, em entrevista a Patti Smith, que compôs uma canção em sua homenagem, aquela expressava a opinião que Amy Winehouse havia sido uma excelente artista. "Tinha uma voz tão única e sabia expressa-la tão bem! Era uma excelente cantora, alguém que se colocava dentro das canções e que as vivia com muita intensidade e verdade." 

Ao primeiro álbum, Frank (2003), que citava Sinatra no título, já se percebia a contadora de histórias dominadas pelas contradições das relações amorosas, mas seria a partir de 2005, quando a sua existência dá uma reviravolta, que se veria uma cantora diferente. O álbum Back To Black (2006) fixava a sua difícil condição emocional, partilhando de forma vulnerável as suas perplexidades em canções como Love is a losing game, You know i’m no good ou Rehab. Nesse disco mostrava uma visceralidade soul que não se lhe conhecia até aí. Para além da soul ou do jazz, havia agora também a influência da pop exuberante dos anos 1960, na linha das Shangri-Las.

A soul mais física, graças a ela, e ao importante papel dos produtores Mark Ronson e Salaam Remi, voltava a recuperar a juvenilidade perdida, depois de décadas de letargia, pelo menos quando se pensa em soul para o grande público. Ao contrário do que se possa pensar, o sucesso planetário não foi instantâneo. Demorou tempo a entrar no imaginário popular. Muitos criticavam a falta de universalidade. Era demasiado britânica.

A sua música remetia para uma Londres nostálgica, humana, popular, quase grosseira, à beira da desaparição, habitando os pubs. Um dia alguém disse que Paris tinha Piaf, Londres tinha Amy. Talvez seja exagero. Talvez não. Aos poucos a sua música estava em todo o lado. Aquela voz que parecia dissociada daquele corpo de desenho animado, foi-se impondo em todo o mundo, com muitos prémios pelo meio (Grammys, Ivor Novello). O seu sucesso não só abriu as portas a outros cantores do centro do mercado (Adele, Sam Smith, Lilly Allen, Cee-Lo Green, Janelle Monae), como contribuiu para a reabilitação da soul junto das franjas (Mayer Hawthorne, Aloec Blacc, Alice Russell, Sharon Jones).

Em 2010, numa sessão da RedBull Music Academy de Londres a que assistimos, Mark Ronson dizia que ela, em estúdio, era alguém que cantava o amor sem equívocos, transformando cada canção num mundo seu, com uma voz tão limpa quanto impura.

Fora do estúdio não era diferente. A partir de determinada altura os seus concertos tornaram-se imprevisíveis. Como a vida. Só o tempo dirá qual será o seu lugar no panteão dos mitos da pop. Quatro anos depois recordam-se ainda os momentos bons e maus. Haverá uma altura em que possivelmente só ficarão os bons.