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Crítica

Os amanhãs que nunca cantaram

O russo Kantemir Balagov explora os pântanos morais do pós-Segunda Guerra Mundial numa Leninegrado invernal.

Cinema Violeta

Violeta: a capacidade de olhar a dor sem máscaras nem fachadas

É apropriado que Portugal tenha “redescoberto” em 2019 o estarrecedor Vem e Vê de Elem Klimov e que chegue ao final do ano com um outro olhar, diferente mas angustiante, sobre os custos da Segunda Guerra Mundial na União Soviética. Violeta passa-se em Leninegrado, nos primeiros meses após o fim da guerra, e centra-se num hospital que acolhe os muitos feridos e convalescentes da Grande Guerra Patriótica. Iya (Viktoria Miroshnichenko), a enfermeira conhecida por “magricela” que traz sempre um sorriso nos lábios, é também um desses convalescentes — sofre de ataques que a paralisam durante longos minutos, como se o mundo continuasse mas ela desaparecesse dele. Ou como se ela quisesse desaparecer dele.

É durante um desses ataques que Kantemir Balagov nos abre a porta do seu segundo filme e começa a demonstrar um virtuosismo ofensivamente impressionante para alguém que ainda nem fez 30 anos. Aluno e protegido de Sokurov, Balagov demonstrara com a sua primeira longa, Closeness, que venceu o LEFFEST de 2017 mas não teve estreia comercial entre nós, um dedo especial para dirigir actores e uma capacidade extraordinária de imergir o espectador em quotidianos claustrofóbicos, paredes meias com uma insolência de jovem turco. Violeta é um filme mais maduro, menos exibicionista, mas afina aquilo que de melhor se sentia em Closeness: a capacidade de olhar a dor sem máscaras nem fachadas, de se concentrar numa natureza humana reduzida a uma necessidade instintiva de sobrevivência. Veja-se a extraordinária cena, perto do fim, com os pais de Sasha, para perceber a dimensão impiedosa, devastadora, de uma lucidez nascida da tragédia: Violeta é uma teia de amores secretos ou não correspondidos, condenados, pelo contexto em que acontecem, a serem meras transações mercantis. Balagov explora-o através da dissociação entre a cuidada nitidez pictural da fotografia de Ksenia Sereda e o pântano moral captado nos olhos furiosos, determinados de Masha (Vasilisa Perelygina), a melhor amiga de Iya, regressada da guerra com uma necessidade de ter vida dentro de si, custe o que custar.

É um pântano moral que não anda muito longe do que Christian Petzold explorava, de forma mais contida, no seu Em Trânsito, nem das questões que Sergei Loznitsa tem vindo a trabalhar ao longo das suas ficções (No Nevoeiro é aquele que mais ressoa com Violeta). E, um pouco como os filmes de Radu Jude sobre a história da Roménia (com Scarred Hearts à cabeça), há aqui também uma tentativa de contextualizar personagens e trama no seu tempo para melhor fazer a ponte com o nosso. É um filme sobre um passado que ainda marca o nosso presente, sobre mulheres em busca de um futuro que nunca será brilhante, sobre amanhãs que nunca cantaram. Saímos de Violeta como nele entrámos, in medias res, atordoados, convencidos de que Kantemir Balagov talvez ainda não tenha feito o seu grande filme mas que se está a aproximar dele a passos largos.