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Alemanha restitui à Grécia a taça de vinho do vencedor da primeira maratona olímpica

Depois de vencer a mítica prova em 1896, Spyros Louis foi agraciado com uma taça de vinho do século VI a.C. Quatro décadas depois, a relíquia estava nas mãos de um professor universitário alemão, nazi fervoroso. Esta quarta-feira, a longa viagem da taça conheceu novo e, provavelmente derradeiro, capítulo, com a sua restituição a Atenas

A taça de cerâmica foi originalmente descoberta num tumba em Tebas e é datada do século VI a.C. Orestis Panagiotou/EPA

Até aquela tarde de 10 de Abril de 1896, Spyros Louis era um simples aguadeiro. A partir daí, passou a ser alguém de uma dimensão completamente diferente, um mito grego (moderno). Nascido 23 anos antes em Marousi, a norte de Atenas, entrou no estádio ateniense que acolhia as provas dos primeiros Jogos Olímpicos Era Moderna para cumprir a volta ao recinto que encerrou a prova em que competia e tornar-se assim o primeiro vencedor da Maratona. Nas eufóricas celebrações que se seguiram, foi agraciado com um sem fim de oferendas. Uma delas era uma taça cerâmica de vinho, datada do século VI a.C. e descoberta numa tumba em Tebas. Quando Spyros morreu, em 1940, a taça já não se encontrava na Grécia. Caíra nas mãos de um afamado historiador nazi e viajara até à Alemanha. Esta quarta-feira, a sua longa e impressionante viagem conheceu aquele que será, provavelmente, o seu último capítulo, com a devolução, por parte da Alemanha, à sua Grécia natal.

Durante a cerimónia de repatriação da relíquia, no Museu Nacional de Arqueologia, em Atenas, Lina Mendoni, a ministra grega da Cultura, declarou que “o nobre gesto da Universidade de Münster [instituição alemã que havia adquirido a taça em 1986] é um gesto muito importante do povo alemão para com o povo grego”, acentuando depois que “o património cultural pertence ao povo que o criou”. A peça de cerâmica, onde sobre o fundo laranja do barro surgem figurados dois atletas em competição, manter-se-á em exposição no museu até ao início de 2020, quando passar a integrar a colecção de um outro museu, dedicado à história dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, situado naquele que foi o seu palco e local de nascimento, Olímpia.

Georgios Kivvadias, um dos responsáveis pelas colecções do Museu Nacional de Arqueologia de Atenas, contou ao britânico Guardian a história da recuperação da taça. Tudo começou em 2012, quando Kivvadias foi encarregado de descobrir o seu paradeiro. Não se sabe como saiu das mãos de Spyros Louis, mas é certo que, em 1934, era propriedade de Werner Peek, respeitado filólogo e investigador de arte da Antiguidade que trabalhava então no Instituto Alemão de Arqueologia em Atenas. Nesse mesmo ano Peek, nazi fervoroso, entregou a sua colecção de relíquias da Antiguidade grega a um político alemão de visita à capital grega. Esse político era Hermann Goering, o número dois do Reich de Hitler, o supremo comandante da força aérea alemã, a Luftwaffe, que terá levado a colecção de Peek para a Alemanha escondida em malas diplomáticas, longe do olhar das autoridades gregas.

Regressado à Alemanha em 1937, Werner Peek recuperou a colecção. Quatro anos depois, Atenas caía, invadida pelas forças do Reich. Oito anos depois, a guerra terminava com o Reich derrotado e a Alemanha em ruínas e dividida. Peek estava então no que seria a República Democrática Alemã — ironicamente, o velho nazi trabalharia como professor universitário na nova Alemanha comunista. Quando se muda para a parte ocidental do seu país, no final da década de 1980, decide vender a colecção reunida em Atenas à Universidade de Münster, onde três décadas depois Georgios Kivvadias viria a descobrir a taça de Spyros Louis.

A restituição da relíquia surge num contexto em que se discute o destino a dar às obras de arte estrangeiras na posse de instituições do mundo ocidental e cuja aquisição se insere num contexto colonial ou de puro roubo, como no caso das peças recolhidas em vários países durante a ocupação nazi. Este ano, por exemplo, 16 estados alemães comprometeram-se a repatriar todas as peças adquiridas de “formas hoje legalmente e moralmente inaceitáveis” que os seus museus e universidade detenham. É nesse contexto que a Grécia tem intensificado a sua intenção, manifestada há décadas, de recuperar os Mármores do Parténon em exposição no Museu Britânico, em Londres, desejo a que a instituição britânica, tal como no caso da Pedra de Roseta reclamada pelo Egipto, se tem recusado a aceder.