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O acontecimento diabólico chamado Grande Sertão: Veredas

Publicado originalmente em 1956, Grande Sertão: Veredas está traduzido em várias línguas e só agora tem edição em Portugal. O seu autor, Guimarães Rosa, inventou uma linguagem. Quem a desvendar terá acesso a um universo de que não irá querer sair, transformador, violento, sensual, poético, de uma beleza feroz.

“Nonada” é uma palavra mágica no universo de Guimarães Rosa. Quer dizer coisa de pouca importância, uma ninharia. “Nonada” é a primeira palavra de Grande Sertão: Veredas e assinala o grande paradoxo que ali começa: o de parecer não existirem palavras para falar do amor, da morte, do sofrimento, do ciúme, da vida, desse quase nada ou nada de muito importante para o qual é preciso inventar uma linguagem nova em que som e sentido, erudição e oralidade andam juntos. “Os paradoxos existem para que ainda se possa exprimir algo para o qual não existem palavras”, afirmou Guimarães Rosa numa entrevista a Günter Lorenz, no Congresso de Escritores Latino-Americanos, em 1965. Toda a sua actividade literária se concentrou nessa tentativa de nomear o que ainda não tinha nome, estabelecendo com a língua uma relação extremada que definiu nessa mesma entrevista: “A língua e eu somos um casal de amantes que, juntos, procriam apaixonadamente.” Foi dessa paixão que nasceu Grande Sertão: Veredas, romance absolutamente solitário na história da literatura.

“O livro é um acontecimento”, diz Clara Rowland ao Ípsilon. “Para mim é difícil descrevê-lo porque foi, de facto, um acontecimento que determinou tudo o que fui fazer a seguir”, continua a professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, especialista em Literatura Brasileira. “Fiz algumas tentativas, abandonei-o várias vezes até que consegui.” Foi pela página 80, “quando tudo fica mais fácil”. Estava no primeiro ano da faculdade e essa leitura mudou-lhe a vida. “Sim, mudou decididamente. Fui para o Brasil viajar atrás das paisagens do Grande Sertão: Veredas.”

Grande Sertão: Veredas tem uma dedicatória: "A Aracy, minha mulher Ara, pertence este livro"

Abel Barros Baptista, ensaísta, cronista, escritor, também professor na Universidade Nova de Lisboa, especialista em literaturas portuguesa e brasileira, refere várias tentativas frustradas, até uma espécie de novo mundo se revelar mais ou menos pela página 80. E agora afirma: “Grande Sertão: Veredas é o romance mais ambicioso e extraordinário em língua portuguesa”, refere, sublinhando o cuidado devido sempre que se usar a expressão “língua portuguesa”, sobretudo aplicada a um livro que amplia a ideia de literatura.

“É um monstro”, declara Silviano Santiago, crítico brasileiro e um dos maiores estudiosos da obra de Rosa, autor do ensaio Genealogia da Ferocidade [2019] que incide sobre o “carácter selvagem” e indomesticável de um livro que “desorganiza e desnorteia”, e que é “uma bofetada no Homem”.

O monólogo e a estranheza

Que poderes esconderá a página 80? Não se pode começar por ela sob pena de nunca se conseguir alcançar o que lá está. Mas parece ser por ali que o livro se cola, como um prémio pelo esforço do leitor tenaz que chegou até ali. “Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta empoçada, ninguém me caça. Da vida pouco me resta — só o deo-gratias, e o troco. Bobeia. Na feira de São João Branco, um homem andava falando — ‘a pátria não pode nada com a velhice...’ Discordo. A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas — ele dizia: aqueles todos anéis davam até choque eléctrico... Não. Eu estou contando assim, porque é meu jeito de contar. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posso de todos animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucúia, em São Romão, aonde aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.”

O tom, o modo de narrar, a geografia, um tempo sem tempo, a linguagem, quase tudo concentrado num parágrafo. “A partir do momento em que se vence a resistência inicial é uma literatura acessível; há pessoas que matam outras, têm ciúme, há aventura e transmissão de saber. O Grande Sertão é um símbolo de toda a visão literária de Guimarães Rosa”, sintetiza Abel Barros Baptista, que lembra o momento em que chegou à página 80 e se sentiu como que “sorvido por um interesse, um fascínio, uma paixão, atravessada uma fronteira em que parece ter terminado um período de estágio”. O estágio das páginas iniciais.

No princípio do livro há um travessão, sinal de início de um longo monólogo do jagunço Riobaldo a contar a sua vida a um interlocutor silencioso. “—Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.” Esse monólogo termina umas centenas de páginas depois quando o romance se abre ao infinito. No intervalo entre a primeira e a última página concretiza-se aquilo que o crítico português Óscar Lopes designou de “possibilidade moderna do grande poema épico”, quando em 1964 propôs o romance de Guimarães Rosa ao Prix International de Littérature a par com outro, ideologica e estilisticamente bem diferente, Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado, embora com preferência declarada para o de Rosa.

O efeito de estranheza causado pela publicação do livro no Brasil em 1956 não se desvanecera. Antes se acentuara como indissociável da experiência de leitura de um romance que desafiava as convenções e as correntes. Vinha na tradição dos regionalistas, mas não era regionalista. Nem tinha o minimalismo ou a relação quase matemática com a língua dos concretistas. “Inicialmente Grande Sertão: Veredas abre sorrisos e caretas nos leitores e recebe na cara o silêncio constrangedor dos romancistas e poetas então em destaque na capital federal”, escreve Silviano Santiago em Genealogia da Ferocidade. E acrescenta sobre o livro em que Riobaldo reconstitui os acontecimentos da sua vida no sertão junto ao rio São Francisco, fronteira entre Minas Gerais e a Bahia: “O romance de Rosa manuseia dicionários reais e estapafúrdios, pessoais e imaginários e, em sintaxe travessa e com pontuação anárquica, esparrama perdulariamente palavras, tocos de palavra e interjeições onomatopaicas pela página em branco.”

Mapas desenhados pelo artista Poty Lazzarotto para a segunda edição de Grande Sertão: Veredas, em 1958

É nesse território, ou enclave, que o jagunço fala da vida e dos homens do sertão, “onde manda quem é forte em astúcias”, se interroga se “o diabo existe ou não existe” e nessa dúvida também duvida de Deus, e conta sobre Diadorim, outro jagunço com quem tem uma ligação que ultrapassa a da amizade: “Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a ideia da gente não dá para entender — e acho que é por isso que a gente morre.”

Há um segredo, um desejo de vingança, duas vidas que correm a par de outras, as de Hermógenes, Joca Ramiro, Zé Bebelo, Medeiro Vaz, Otacília, Nhorinhá, compadre Quelemém e muitos jagunços. “O final não se pode dizer”, adverte Abel Barros Baptista. “Explicar isso a alguém é uma maldade que se faz porque a ideia de spoiler [a existência de spoiler] é constitutiva da experiência do livro. Há um mundo que se orienta para uma revelação.”

Regressamos a Clara Rowland e à sua definição de Grande Sertão: Veredas numa única palavra: acontecimento. “É um acontecimento no sentido em que há poucos livros tão totais. É um acontecimento porque é um livro que constrói um mundo com uma intensidade rara, e com uma intensidade que convoca desde a ideia de romance até à própria forma do romance, à língua em que o romance está escrito. Entrar nele é entrar num universo absolutamente coerente e tenso, porque todos os instrumentos estão ao serviço da criação deste efeito de leitura que é chegar ao fim do Grande Sertão.”

Um romance assim demorou 63 anos a ser publicado em Portugal. Chegou no final de 2019, muito depois de ter sido traduzido para várias línguas entre elas o castelhano, o alemão ou o italiano.

“Não há uma explicação razoável para isso, porque as razões são circunstanciais; têm que ver com a família, com os direitos, com a falta de interesse em fazer condições especiais para o mercado editorial português, que tem uma dimensão muito limitada. Durante muitos anos era paradoxal encontrar mais facilmente a tradução italiana dos livros do Rosa do que em Portugal. Mas há uma coisa interessante — é que eles foram muito lidos nos anos 60 e 70, porque os livros brasileiros circulavam muito mais”, diz Clara Rowland. Chegou a preparar um prefácio para Primeiras Estórias [1962], volume de contos de Guimarães Rosa que o editor André Jorge queria incluir na colecção Curso Breve de Literatura Brasileira, publicado pela Cotovia entre 2005 e 2008. “Era paradoxal durante muitos anos, ser mais fácil encontrar os livros do Rosa em tradução italiana nas livrarias do que em Portugal.”

“Com a criação da Companhia das Letras em Portugal, em 2015, a publicação de Grande Sertão: Veredas esteve sempre no nosso horizonte”, conta Clara Capitão, directora editorial da Companhia, adiantando que Rosa era visto como “indispensável” num catálogo que tinha Raduan Nassar, Carlos Drummond de Andrade ou Vinicius de Moraes. “Parecia-nos urgente fazê-lo, tendo em conta que Grande Sertão: Veredas não tinha nunca tido edição normal em Portugal (excepção à edição fac-similada do PÚBLICO, em 2014, na colecção 800 Anos de Literaturas em Português). O processo de contratação foi moroso e complexo, porque numa fase inicial nem sequer conseguíamos apurar quem detinha os direitos do livro, visto que os direitos da obra de Guimarães Rosa estão repartidos por vários herdeiros. Conseguimos por fim publicá-lo graças à Companhia das Letras Brasil, que o publicou também em 2019.”

A herança

Grande Sertão: Veredas tem uma dedicatória: “A Aracy, minha mulher Ara, pertence este livro.” Não é uma mera dedicatória. Clara Rowland lembra a importância que Rosa dava à literalidade. Aquelas palavras eram uma herança para a segunda mulher do escritor. Conheceu-a em Hamburgo, no final dos anos 30, quando trabalhava como diplomata para o Itamaraty, o palácio-sede da diplomacia brasileira. Ela era funcionária do Consulado do Brasil em Hamburgo, uma poliglota filha de pai português e mãe alemã, separada do primeiro marido, que ajudou muitos judeus alemães a instalarem-se no Brasil em plena ditadura de Getúlio Vargas. Ficaria conhecida como o “Anjo de Hamburgo”. Os dois viveram na Alemanha até 1942, altura em que regressam ao Brasil onde Rosa já tinha família.

João Guimarães Rosa nasceu a 27 de Junho de 1908 em Cordisburgo, pequena cidade hoje com oito mil habitantes, a norte de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais. Era o mais velho de seis irmãos, filho de Florduardo Pinto Rosa, o Seu Flor, dono de venda a quem muitas vezes Rosa escreveria a pedir-lhe que contasse mais histórias do que ali ouvia, e de Francisca Guimarães Rosa, Dona Chiquita. Estudou em Belo Horizonte, em casa do avô, e formou-se em Medicina com a ajuda financeira do tio. Como Aracy, falava várias línguas. Numa entrevista chegou a dizer: “Eu falo português, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialectos alemães; estudei a gramática do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês, bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distracção.”

Terminou o curso de Medicina e casou-se no mesmo ano com Lígia Cabral Pena. Ela tinha 16 anos; ele 22. Tiveram duas filhas. Foi médico numa cidade pequena, também em Minas Gerais, e conta que ali aprendeu muito do que seriam os seus temas literários: o interior, o sertão menos inóspito do que o nordestino, o das margens do rio São Francisco, com os vaqueiros, os jagunços, o verde, as veredas na aridez, o paradoxo que o título do seu romance também encerra. “Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes da minha vida, e, a rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte.” Esta autobiografia muito resumida veio como resposta a outra pergunta de Günter Lorenz. Entretanto, concorrera à carreira diplomática e nas folhas do Itamaraty escreveria grande parte da sua obra literária.

O Brasil não aparece escrito. É um sertão imaginado a partir do real, justamente para criar a alegoria acrónica

Morreu a 19 de Novembro de 1967, três dias depois de tomar posse como membro da Academia Brasileira de Letras para onde fora nomeado em 1964. Adiou a posse com receio da emoção. Tinha 59 anos, oito livros publicados, o último chamado Tutameia. Seguiram mais três póstumos. No total, são 11 títulos, entre poesia, contos e novelas e um romance: Grande Sertão: Veredas. “Esse livro não tem amigos. É um livro sem amigos! É a isso que eu chamo um monstro”, afirmou Silviano Santiago em Lisboa, onde esteve em Novembro para “celebrar” a edição do romance em Portugal, querendo frisar o facto de o seu autor não pertencer a nenhuma escola nem a grupos.

O único e o diabo

Ele vinha de fora do mundo literário, um grande leitor que se fez escritor na tal paixão pela língua.A tentativa de o conotar com alguém estava condenada ao falhanço — apesar dos paralelismos com Ulisses, de James Joyce, com Fausto, de Goethe, ou Doutor Fausto, de Thomas Mann. “Eu aproximo-o sempre mentalmente de livros como Moby Dick, do Melville; são cosmogonias. E também porque no Melville há o modo como a questão filosófica do bem e do mal é traduzida em enredo romanesco com uma concisão semelhante”, refere Clara Rowland acerca de uma questão central em Grande Sertão: o pacto que Riobaldo poderá ter feito com o diabo, entidade que recebe 52 nomes diferentes ao longo do romance, contabilidade feita por Silviano Santiago, uma obsessão roseana vincada na frase em que a dúvida persiste: “E as ideias instruídas do senhor me fornecem paz. Principalmente a confirmação, que me deu, de que o Tal não existe; pois é não? O Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-quediga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos... Pois, não existe!”

Há ou não o diabo? Existe ou não um pacto? Questões fundamentais que a linguagem de Guimarães Rosa vai tentar formular, tacteanto sentidos em conjunto com o leitor. Ele “não é apenas um escritor original do ponto de vista linguístico, é o primeiro escritor brasileiro a ostentar como princípio fundamental a liberdade de construir o seu idioma repudiando uma relação necessária com a língua materna nacional, porque na verdade a língua materna nacional é já plural de raiz e fonte de aberturas para laços com outras línguas do mundo. Do ponto de vista teórico, Rosa exemplifica uma ideia simples, mas indispensável: a passagem da língua materna à escrita não se faz em continuidade, mas numa ruptura que abre veredas incalculáveis e imprevisíveis e donde se não regressa nunca a um estado suposto original, de pureza e simplicidade”, afirma Abel Barros Baptista. Não é possível reconstituir essa virgindade a cada vez que se relê. Procura-se, mas a descoberta é de detalhes que a imersão inicial no livro não permitiu por estar viciada na trama como nos bons romances de aventuras. “A experimentação no livro não é feita para causar obstáculos ao leitor”, insiste o crítico português. “Ele em uma posição excêntrica na literatura. É a experiência mais radical de criação de uma língua própria. O romance é construído no pressuposto de que o leitor vai aprender aquela língua; ele dá ao leitor a hipótese de aprender uma língua e nós queremos saber tudo a partir do momento em que entramos naquele mundo.”

E Clara Rowland: “É um livro que obviamente não pode criar escola. Muitas vezes lêem-se frases como: ‘Depois de lermos o Guimarães Rosa ninguém pode escrever da mesma maneira’, e é verdade. E, no entanto, qualquer escritor que tente escrever à Guimarães Rosa, imitando o Rosa, falha, porque são muito reconhecíveis essas experiências vagamente inspiradas no Rosa e não têm nada que ver, porque a semelhança não corresponde ao projecto linguístico do Rosa, que era extremamente laborioso e extremamente exigente e consistente. Não há imitação possível.” A permanente admiração, estranheza, espanto tem acompanhado Grande Sertão: Veredas desde 1956, o ano em que Silviano Santiago leu o livro pela primeira vez. Foi-lhe oferecido por um amigo que lhe disse: “Eu não gostei, mas acho que você vai gostar.” Têm sido anos de embate. Viu nele características metafóricas comparáveis à do gigante Adamastor. “Grande Sertão: Veredas fala com tom de voz horrendo e grosso, que sai do enclave selvagem. Irrompe a circulação cronológica e progressista da narrativa ficcional brasileira e, caso algum escritor tente transpor a muralha imposta pelo monstro, e alguns poucos o quiseram no mundo lusófono, ele passa a monitorar o próximo e incrível naufrágio do navegador atrevido ou a indicar como ideal um além, muito além, da navegação linguageira humana”, lê-se mais uma vez em Genealogia da Ferocidade.

E se for para encontrar alguém mais próximo de Rosa, então o crítico brasileiro acha um par possível no cinema. Em Alain Resnais. “Se parece um pouco. Resnais, no início da sua carreira, fez um documentário extraordinário sobre a Biblioteca Nacional de Paris a que deu o seguinte título: Toute la Memoire du Monde (1957). É isso, é toda a memória do mundo. É essa arrogância, é querer escrever um romance com toda a memória do mundo”, afirmou em Novembro.

Guimarães Rosa quis que Grande Sertão: Veredas fosse isso na versão de Riobaldo sobre a sua vida e no seu olhar acerca da paisagem que o rodeia. “O vínculo entre a língua e a paisagem no Grande Sertão é um vínculo muito pouco domesticável no sentido de vinculável apenas ao contexto brasileiro, porque Rosa sonha uma utopia linguística em que a língua pode ser moldada numa paisagem também literária e imaginária. E este sertão é provavelmente a maior construção geográfica-literária que temos, precisamente por essa aliança entre o criar um mundo através da língua e criar uma paisagem que só existe em função daquela língua que foi criada, portanto sempre nómada e feita também em função da leitura”, refere, por sua vez, Clara Rowland sobre essa alegoria permanente em que a paisagem também é e não é, onde Riobaldo descobre que “viver é muito perigoso”, frase-chave, conjugada em muitos momentos da narração. “Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”, e é como se ouvíssemos dizer isto a Quelemém, o interlocutor silencioso, que o escuta nas suas contradições, na luta entre bem e mal, nos pormenores das guerras entre jagunços, numa religiosidade indecisa, mas sempre presente. “...se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é para sarar a loucura. No geral. É isso que é a salvação-da-alma... Muita religião seu moço! Eu cã não perco ocasião de religião.” E há uma música permanente nessa língua nova, original, exuberante que é a de um Riobaldo também alegórico, o Homem na sua versão de si mesmo, paradoxal.

Sobre isto Clara Rowland cita de cor o poeta e crítico Manuel Bandeira numa crónica sobre Guimarães Rosa em que ele critica precisamente a exuberância verbal: “Talvez o único reparo que eu faça à prosa do Rosa seja a sua exuberância.” E diz mais: “Rosa não se repete, não tira clichés dos seus achados e termina que a gente já não sabe se o que acabamos de ler é do Guimarães Rosa ou do povinho do seu interior mineiro.”

O Brasil não aparece escrito. É um sertão imaginado a partir do real, justamente para criar a alegoria acrónica. Para Abel Barros Baptista o livro não assenta na ideia de interpretação ou representação do Brasil. Não é realmente um livro com uma relação constitutiva com o Brasil. Quando o leu pela primeira vez, o Brasil não se reconheceu. E o mundo reconhece-se? Sempre foi um livro de poucos leitores, mas os que teve renderam-se. “É a memória do mundo”, vai dizendo Silviano Santiago, que o contextualiza no tempo em que foi escrito para logo dizer que não pertence a esse tempo nem a nenhum outro. “O monstro de Guimarães Rosa nada tem que ver com o singelo, doce e nostálgico balando da bossa-nova que, tão cool quanto o jazz moderno que o adjectivo inglês tão bem qualifica, assalta as estações de rádio e o mercado fonográfico das capitais em busca de um mercado internacional adocicado pelo bem-estar alcançado no pós-guerra pelas sociedades do Primeiro Mundo. Para as imaginações ilustradas e bem pensantes, Grande Sertão: Veredas é ácido, corrosivo e principalmente intempestivo.”

Em Portugal, Óscar Lopes leu-o e confessou como se rendeu a um livro de um escritor que não pertencia ao seu atlas ideológico nem literário. Por cá ainda se vivia sob a estética do neo-realismo, muito marcado pelos regionalistas dos anos 30 no Brasil. Mas quando leu Rosa percebeu a obra de excepção. Leu-o durante cinco anos e produziu alguns ensaios. Neles pode ler-se a frase: “A ideia mais insistente nas obras de Guimarães Roa parece ser a de que a vida só vale como oportunidade de nos fazermos a nós próprios.”

E tudo a partir desse sertão, o enclave. Clara Rowland: “Há um momento do livro em que se diz que o sertão não tem janelas nem portas. A pessoa está lá dentro e não consegue sair. O livro é isso. O livro é feito para ser uma experiência total de leitura e em algum momento nos fazer interrogar se conseguimos sair dele; por isso é que depois é tão difícil ler outras coisas quando se termina de ler o Grande Sertão. Há sempre um período de carência até voltar a outras leituras menos intensas. Mas nesse sentido é um livro tão ambicioso como projecto total como alguns dos livros mais marcantes da história da literatura. Por isso se fala nele como monstro, ou como acontecimento nem literário.”

Assim, no romance: “De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas acções?! Me franzi. Ele tinha culpa? Eu era o chefe. O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa...”