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Entrevista

Slow J: You Are Forgiven significa ‘Tu já nasceste com o perdão’. É uma ideia de liberdade”

Lágrimas, uma das mais belas canções de You Are Forgiven, acaba de receber um videoclip empenhado em fazer luz sobre um assunto que, muito pessoal para o músico de Setúbal, ainda é tabu.

Rui Gaudêncio

You Are Forgiven, segundo álbum de João Coelho, confirmou que a aclamação que o álbum de estreia lhe granjeara não foi fruto do acaso. Ao contrário do que sucedeu nessa estreia, o novo disco, editado em Setembro, surgiu de surpresa, sem os anúncios e manobras de sedução habituais. Hoje, é lançado o videoclip de Lágrimas — canção que o músico afirma ser o eixo de todo o disco —, em cujas imagens (um casal de bailarinos numa coreografia de fraternidade) se metaforizam os versos de uma outra canção do álbum, Mea Culpa: “Eu chorei o morto / Hoje quem me dera / Que a espontaneidade fosse escolha dela / Agora isso tudo é passado / Não guardo p’ra mim / São dores que viraram cores no nosso jardim”. Palavras, até agora na sombra, que Slow J aborda publicamente, pela primeira vez, em entrevista ao ípsilon.

Quando se preparava para lançar The Art of Slowing Down (2017), dizia que o seu maior desafio tinha sido o de se abster de tentar fazer música “incrível” e concentrar-se em fazer música honesta. Que desafios sentiu ao fazer o novo disco?
Engraçado… Não me lembrava. Eu devia escrever essa frase na parede, porque também foi esse o desafio neste álbum. Há um problema quando não damos importância à nossa experiência pessoal, quando a consideramos corriqueira. Há um writer’s block, porque estamos tentamos emular coisas fantásticas que ouvimos da vida ou das fantasias de outras pessoas. Mas as coisas que vêm da nossa experiência pessoal são as mais valiosas — para nós e, se lhe dermos a importância devida, também para os outros. O exercício de desbloquear a escrita neste álbum foi esse. “Ok, neste momento, estou em casa com um bebé, tenho 3 horas por dia para ir ao estúdio, a minha vida é lavar biberões”. Se eu não conseguisse traduzir as minhas emocões, que são as frustracões e as felicidades normais do dia-a-dia, para a música, não lhes estaria a dar a importância devida. A melhor coisa que posso dar a uma pessoa é a minha experiência, ponto.

Desde The Free Food Tape (TFFT, 2015) que as capas dos seus trabalhos vêm contando uma história. A de You Are Forgiven é simultaneamente uma impressão digital e um labirinto. Com uma cruz ao centro. De onde surgiu a ideia? Como surgiu a ideia para a de You Are Forgiven?
A capa foi feita pelo meu irmão. É uma metáfora muito simples, é isso que gosto nela: demonstra que cada pessoa, cada impressão digital, cada identidade, tem o seu labirinto. O álbum fala sobre isto: por mais que as pessoas me vejam como alguém que atingiu algo com que elas sonham ou que é incrível aos seus olhos, só eu sei se atingi o que tinha a atingir ou não. Só eu sei o meu labirinto. A ideia de labirinto, a forma como é utilizado na mitologia, tem a ver com o chegarmos mais próximo de nós mesmos. Não sei se conhece um livro chamado The 7 Habits of Highly Effective People. Ele [Stephen Covey] fala dos conceitos de vitória pública e vitória privada. Uma vitória pública nunca vai ser sustentável se não tivermos, em primeiro lugar, a nossa vida privada como alicerce disso. Ao longo do processo de fazer este álbum, toquei 40 datas num ano. Eu era, a toda a hora, o catalisador da festa dos outros e, simultaneamente, estava triste por dentro. Por mais que os outros nos digam “Chegaste lá, não mudes, continua assim”, isso pode não significar nada.

O videoclip de Lágrimas aborda, de forma explícita, um acontecimento pessoal por que o Slow J e a sua namorada passaram. Por que razão fez o videoclip para essa canção e não para Mea Culpa, que é a canção em que aborda, se bem que não de forma explícita, esse assunto?
Lágrimas é o tema central do álbum. O álbum foi todo construido em função dele. Eu sabia que queria dar importância a esta canção. É talvez a melhor que já escrevi.

Em que momento teve lugar o aborto espontâneo de que fala o videoclip?
No ano passado. Eu estava em concertos. Tem que ver com o que falámos antes: depois de receber a notícia, tive que dar um concerto. E fui, subi ao palco, cantei as músicas. Aquele sentimento de “Vocês não sabem o que eu estou a viver aqui dentro”. Foi um crash que me levou a compreender que havia coisas na minha vida que eu precisava de mudar. Muitas vezes são situações extremas que nos fazem pensar que temos de mudar. Isso foi a ponta do icebergue.

Hoje é lançado o videoclip de Lágrimas — canção que o músico afirma ser o eixo de You Are Forgiven Rui Gaudêncio

Que aspectos sentiu que tinha de mudar?
Compreender que não preciso de fazer mil concertos por ano. Que preciso de estar focado naquilo que me faz feliz e de montar a minha vida para o poder fazer regularmente. No ano passado, com a quantidade de datas que fiz, o tempo em estúdio foi muito sacrificado. E, depois, pequenas coisas que continuo a trabalhar até hoje. Não é como se já tivesse posto tudo direito na minha vida: tentar fazer exercício, comer bem, acordar cedo, tomar o pequeno-almoço, esse tipo de coisas.

De que forma esse acontecimento influenciou os seus processos de trabalho? Foi um momento de viragem, de alavanca, ou, pelo contrário, impeliu-o a fazer uma pausa?
Foi um alerta para me recolher, daí não ter tocado este ano. Entretanto, nasceu o meu filho. É curioso como as coisas positivas vêm de outras muito negativas. Eu estive muito indeciso em explicitar a questão no videoclip. Tenho medo de, ao tornar as coisas concretas, afunilar a interpretação que as pessoas lhe podem dar. É importante que as pessoas oiçam Lágrimas e que, mesmo que não tenham passado por aquela experiência específica, ele possa funcionar como funcionou para mim. Eu senti que não tinha nenhuma música que quisesse ouvir no momento em que recebi aquela notícia. Fiz Lágrimas para ter essa música. Sinto que pode ajudar as pessoas que passem por esse tipo de perda.

O que o fez mudar de ideias e explicitar a questão no videoclip?
O aborto espontâneo é um tabu. Toda a gente sabe que, quando uma mulher engravida, ela e o namorado não o devem contar a ninguém durante os primeiros três meses porque há um risco muito alto. Na maioria das vezes em que um aborto espontâneo acontece, quase ninguém sabe. As pessoas devem lidar com as superações à sua maneira. Mas senti uma certa responsabilidade em usar a minha voz e o alcance que ela tem, por sentir que podia ajudar as pessoas a sentirem-se menos sozinhas. Porque senti-me muito sozinho, percebe? Não havia ninguém à minha volta que tivesse passado por isto. “Isto é para eu lidar e descobrir à minha maneira”. Lembro-me de pesquisar sobre o assunto na Internet e de perceber como isto acontece com imensa gente. Não curou mas ajudou.

Conversou com a sua namorada antes de decidir fazer o videoclip?
Claro que sim. E claro que isto é ainda mais sensível para ela do que para mim. Ela também viu o potencial de podermos ajudar as pessoas que passam pelo mesmo, foi com essa vontade que explicitámos isto juntos. Expondo-me a mim, o videoclip expõe-na ainda mais a ela.

Como surgiu a ideia da coreografia para os bailarinos?
É engraçado porque o bailarino é o meu manager, o Tomás (risos). Ele é coreógrafo tempo e foi a primeira vez que tivemos a oportunidade de explorar isso para uma música minha. A bailarina é namorada dele. Foi um processo muito bonito entre nós os quatro o de poder partilhar esta experiência e vê-la reflectida de maneira tão espectacular. Porque acaba por ser simples, não é? Adoro a simplicidade do videoclip.

A ideia de culpa é central em You Are Forgiven. Daqui a uns anos, se o seu filho andar atormentado com o mesmo tipo de questões, o que lhe dirá?
(risos; pausa) Engraçado… Nunca pensei sobre isto. Claro que um gajo quer ter sempre a cena certa para dizer, mas vai ter de resolver as coisas por ele. O meu crescimento, o tornar-me adulto, tem sido um processo de descomplicar merdas na cabeça. Eu lidei muito com a culpa na adolescência, enquanto crescia. Não sei quanta dessa culpa os outros me fizeram sentir propositadamente ou quanta culpa incuti em mim próprio sem que as pessoas tivessem que ver com isso. You Are Forgiven significa “Tu já nasceste com o perdão”. É um chamamento a mim mesmo para ser livre, para usar a vida para o que realmente quero, para não pagar culpas pelo que deixei para trás. É uma ideia de liberdade.

É interessante a ideia de “nascer com o perdão”. É o oposto da doutrina do pecado original.
Mais ou menos. Cresci católico e não sou católico hoje em dia. Jesus Cristo veio e perdoou todos os nossos pecados à partida, antes mesmo de os cometermos. Mas sem dúvida que a cultura católica vive muito da culpa, do medo de errar. A própria cultura portuguesa.

Teve uma educação católica apenas por convenção ou em algum momento foi convictamente praticante?
Fui, fui. Eu nasci já dentro dessa envolvente, mas vesti a camisola durante muito tempo. E isso formou-me. Não era nada que me sentisse obrigado a frequentar. Hoje, sinto que preciso de representar as minhas próprias ideias, não as de outras pessoas. Gosto de viver a espiritualidade de uma forma mais pessoal, não tanto colectiva.

A experiência de passar por um aborto espontâneo e, algum tempo depois, de ver nascer um filho teve algum efeito nessa espiritualidade? Mudou a sua posição em relação a uma ideia de Deus?
Não mudou, mas tornou-a mais… concreta. Sim, é uma mudança. Assistir a um parto é uma experiencia inacreditável. Claramente, existe magia! (risos) Assistir a um ser humano a nascer… É muito curioso. Lembro-me dos primeiros dias depois do Augusto nascer: pintam-nos a ideia de um bebé como um ser altamente dependente, mas a verdade é que, se ele dependesse só de nós para viver, o gajo não estava vivo! Nós já vimos ao mundo com uma força de viver inacreditável. O bebé, aquele ser original, já tem uma vontade… Já sabe uma data de coisas! (risos)

No final de Silêncio, ouve-se uma voz samplada por breves segundos. Que voz é essa?
É do meu avô Augusto, que morreu este ano. Quando estava a finalizar o TFFT, fui 2 semanas para casa dos meus tios em Setúbal. Ia almoçar a casa dos meus avós e punha o telefone a gravar para sacar alguma cena para o EP. Mas ficávamos só na conversa da treta e não apanhei nada de jeito. Depois do meu avô morrer, lembrei-me disso. Estar a ouvir uma conversa com o meu avô duas semanas depois de ele ter morrido… Era uma conversa bué estúpida, sobre a novela A Única Mulher. Ele era angolano e adorava essa novela, porque se passava em Portugal e Angola. Estávamos a conversar e do nada ele pergunta-me como é que vai o trabalho. E eu digo: “‘Tá a correr bem, ‘tou na calmaria, aqui em Setúbal”. Ele responde: “Pois, ‘tás aqui, no sossego absoluto…”. São ali uns segundinhos perfeitos para fechar o Silêncio.

É sabida a sua admiração por Rui Veloso. Surpreendeu-o as declarações de há um ano quando ele disse que o hip-hop não era música?
(pausa) Acho que o Rui Veloso é uma pessoa como nós, tem dias bons e maus, chateia-se e fica contente. Às vezes apanham-nos no dia mau, dizemos a cena errada porque nos deu para ali e isso torna-se todo um assunto. Eu não levei essa entrevista de forma significativa. Claro que é ofensiva para quem faz hip-hop, mas não nos podemos esquecer que estamos a falar de uma pessoa. E é muito fácil esquecermo-nos disso com os artistas. Eu já senti isso na pele. É fodido porque as pessoas olham para nós como  pessoa pública, não como pessoa. As coisas tomam proporções desumanas.

A sua música tem mostrado grande inventividade. Há algum terreno específico que gostasse de explorar no futuro ou vai-se deixando ir?
Neste momento, estou bué interessado na música popular portuguesa, tenho tentado estudá-la. Eu sou, em primeiro lugar, um produtor, e desde o início que estou a tentar construir um estilo de música novo. Gradualmente, estou a a encontrá-lo. Este álbum já é um bebé disso. O anterior também, em certos aspectos, mas o maturar da minha escrita aconteceu antes do maturar de uma estética musical.

Esse estudo tem passado por onde?
Passa por puxar de um album do Camané. Por tentar compreender quem foi José Mário Branco. Mas também simplesmente vir aqui [aponta para a cabeça]. À memória, percebe? O processo tem sido esse: ouvir e procurar coisas da infância, as canções de embalar. Porque a cultura está dentro de nós, no ritmo do lugar onde vivemos, na forma de pensar das pessoas.