Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

Perguntas e Respostas

Por que quis Portugal ter um reactor?

Combustível nuclear para o reactor português a chegar ao aeroporto de Lisboa em 1961 DR

O reactor nuclear português servia para quê?

Como o nome indica, o Reactor Português de Investigação que irá agora ser desactivado servia para fazer ciência, ensino e formação. Portugal quis ter um reactor nuclear para formação e treino na área da energia nuclear no início da década de 60 a pensar que no futuro iria ter centrais nucleares para produção de electricidade. “Foi construído com um fim em mente: preparar pessoas para que Portugal viesse a ter energia nuclear. Foi um plano que acabou por não ser executado à escala nacional”, resume o físico José Marques, que é o último responsável pela operação do reactor situado à porta de Lisboa.

Tendo a certa altura sido abandonada a ideia das centrais nucleares, ao longo dos quase 60 anos de existência a radiação e os neutrões que o reactor produzia tiveram diversos usos – como a formação de alunos de universidades portuguesas que faziam ali estudos experimentais; testes à resistência de circuitos electrónicos que vão para o espaço; o estudo da forma de moléculas; a caracterização da estrutura interna de peças para verificar se tinham falhas; ou a identificação de vestígios de certas substâncias em estudos ambientais e de ciências da Terra. Também produzia isótopos para investigação científica médica – “não para uso clínico, porque a potência do reactor era demasiado baixa para sermos competitivos”. E recebia visitas de estudo de alunos do ensino secundário.

O que era o programa Átomos para a Paz?

A criação do reactor foi possível através do programa Átomos para a Paz, lançado em 1953 pelo Presidente dos EUA Dwight Eisenhower, num discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas. Iniciado em 1955, este programa celebrou acordos de cooperação bilateral entre os EUA e cerca de 40 países relativos às aplicações pacíficas da energia nuclear dando apoio financeiro e técnico a reactores experimentais de pequena potência. “Foi isso que abriu a possibilidade de Portugal e outros países terem acesso à tecnologia de reactores nucleares. Portugal assinou logo na altura um acordo com os EUA em que se comprometia que esta tecnologia seria usada para fins pacíficos.”

O que é urânio de alto e de baixo enriquecimento?

Na natureza, o urânio natural é quase só do isótopo (forma) 238, possuindo apenas 0,7% de urânio-235, aquele que interessa para uma reacção nuclear em cadeia. Por isso, tem de se enriquecer o urânio natural com o isótopo 235. Se for para um reactor de produção de electricidade, o urânio tem de ser enriquecido até cerca de 5%. Se for para um reactor de investigação, actualmente o enriquecimento vai até quase 20%. Quando se excede os 20%, considera-se que o urânio é já de alto enriquecimento. Os reactores nucleares de investigação, como era ultimamente o caso do português, já quase todos têm urânio enriquecido até 20%.

Quantos corações teve o reactor português?

Três – ou seja, três núcleos. Na sua história há episódios curiosos, como a obtenção em leasing do urânio do primeiro núcleo e a chegada ao país do segundo no período agitado do pós-25 de Abril de 1974.

O primeiro combustível nuclear (urânio de baixo enriquecimento, até quase 20%) veio dos EUA no ano em que o reactor entrou em operação, em 1961. Fotografias a preto e branco fixaram o momento da chegada: “Uma carrinha de caixa aberta foi à porta do aeroporto de Lisboa buscar o combustível. Vinha dentro de uma caixa de madeira no porão do avião com sacos de correio. São fotos inacreditáveis. Outros tempos”, assinala José Marques. O urânio que ainda não foi utilizado num reactor não é tão perigoso como aquele que já foi usado em reacções nucleares; ainda assim é uma mercadoria perigosa, como hoje é classificada.

Combustível nuclear para o reactor português a chegar ao aeroporto de Lisboa em 1961 DR

“No âmbito desse acordo inicial, se Portugal não comprasse o combustível em leasing, teria de devolver uma quantidade equivalente de urânio aos Estados Unidos até 1973”, conta o físico.

Em 1973, o anterior regime político do país ainda tratou da questão do urânio em leasing, acabando por comprá-lo. Ao mesmo tempo, naquele ano, decidiu-se encomendar mais combustível nuclear aos EUA e a escolha recaiu em urânio enriquecido a 93% porque acabaria por ficar mais barato. Seriam necessárias menos barras com o combustível nuclear e é o fabrico dessas barras que é muito mais caro do que o próprio urânio. Surpreendente é que esse segundo carregamento de urânio tenha chegado meses depois da revolução do 25 de Abril. “O novo combustível foi entregue no Verão de 1974. O que é muito curioso que numa situação de mudança de regime tenha vindo urânio dos Estados Unidos para Portugal. Havia incertezas no governo.”

Mas o urânio do primeiro coração do reactor (o que chegou em 1961) não estava já todo gasto quando se comprou o segundo. Continuou a ser usado até 1987. Depois, entre Agosto de 1987 e Janeiro de 1990, o reactor esteve parado para grandes obras e mudança integral do núcleo, sendo então substituído o combustível nuclear original (o tal enriquecido a 20%) pelo urânio de 1974 enriquecido a 93%.

Até 2007 o reactor funcionou com esse urânio de alto enriquecimento. Nesse ano, veio o terceiro e último coração, com urânio outra vez enriquecido a quase 20%. Desde a Administração de Jimmy Carter (entre 1977 e 1981) que os EUA têm limitado a venda e o uso de urânio de alto enriquecimento, que pode ser convertido em usos militares.

Em 2008, o urânio do segundo coração foi devolvido aos EUA, tal como o primeiro em 1999. E agora, em Março, a devolução do terceiro carregamento de urânio fechou este processo. O reactor nuclear português entrou nos capítulos finais da sua história.

Como chegou o urânio do último núcleo do reactor?

Por terra, de camião. Primeiro, o Departamento de Energia dos EUA pôs à disposição de Portugal em França cerca de 25 quilos de urânio enriquecido a quase 20%. A empresa francesa Cerca (subsidiária do gigante nuclear Areva) fabricou as barras para o núcleo do reactor que contêm esse urânio – os elementos de combustível. E de França vieram de camião para Lisboa. Esta mudança do núcleo implicou estudos de segurança por parte da equipa do reactor português e do Laboratório Nacional de Argonne, perto de Chicago. A Agência Internacional de Energia Atómica coordenou globalmente esta conversão do núcleo.

Que reactores de investigação vêm agora aí?

Restam poucos reactores de investigação que ainda tenham urânio de alto enriquecimento. Mas os reactores dedicados à ciência continuam a ter futuro – serão é diferentes daqueles construídos na década de 1960. Se naquela época muitos países tinham não só reactores como eram de baixa potência, agora está a passar-se para um modelo em que há menos reactores, mas a potência é maior e são mais modernos. “Estamos a sair de uma era em diversos países tinham instalações deste tipo para uma era de partilha de instalações entre vários países”, esclarece José Marques. “O panorama europeu é daqui uns anos existiram três, quatro, cinco reactores para toda a União Europeia.”

Países sem energia nuclear, como a Áustria, que mantém um reactor na Universidade Técnica de Viena, continuam também a ter instalações destas para fins de investigação. Existem em Munique, Grenoble e na Polónia. Na Bélgica está a construir-se um e provavelmente, acrescenta o físico português, na Holanda haverá também um reactor novo. Em França, nos próximos anos, será inaugurado o Reactor Jules Horowitz, com a Comissão Europeia a pagar parte dos custos e cuja utilização será partilhada pelos países da União Europeia. “Quando estiver a funcionar, será o reactor de investigação mais avançado da Europa. Terá 100 megawatts. O nosso tinha só um megawatt.” Ou seja, o reactor português tinha a potência equivalente a 500 aquecedores a óleo domésticos (de dois quilowatts), daqueles que qualquer um de nós tem em casa.

Na medicina, por exemplo, os reactores de investigação continuarão a ser importantes, até porque os reactores de produção de electricidade não podem ser usados para esse fim. “O isótopo mais usado em medicina é o tecnécio-99 e é produzido em reactores deste tipo com um bocadinho de mais potência [do que o português].”