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Salvar da extinção os rinocerontes-brancos-do-norte? O nascimento de um “primo” traz esperança

Nascimento de uma cria é um pequeno passo para tentar salvar da extinção a subespécie rinoceronte-branco-do-norte – da qual restam só duas fêmeas em toda a Terra. Ainda que esta cria seja um rinoceronte-branco-do-sul, a técnica usada poderá ser replicada nos parentes próximos (que estão funcionalmente extintos).

Uma cria de rinoceronte-do-norte-branco nascida em 2018 em Israel Amir Cohen/REUTERS/ARQUIVO

É uma “meta histórica” para o jardim zoológico de San Diego: um rinoceronte-branco-do-sul macho saudável nasceu pela primeira vez nos Estados Unidos através de inseminação artificial – a sua “mãe-de-aluguer”, uma rinoceronte chamada Victoria, esteve 493 dias prenha e deu à luz no domingo, num processo que levou meia hora. Além de inédito, o caso ganha especial relevância por poder ser um passo para ajudar a salvar da extinção os “primos” da subespécie rinoceronte-branco-do-norte – o último macho morreu no ano passado e restam apenas duas fêmeas.

“Isto é muito importante para nós. As rinocerontes-brancas-do-sul que aqui estão vão acabar por ser usadas como barrigas-de-aluguer de embriões de rinocerontes-brancos-do-norte”, disse à BBC Barbara Durant, responsável pela ciência da reprodução no jardim zoológico de San Diego. “Antes de pormos um [embrião de] rinoceronte-branco-do-norte numa receptora da subespécie rinoceronte-branco-do-sul, temos de ter a certeza de que ela é capaz de dar à luz.”

Há, portanto, vários motivos de alegria para a equipa: além de o parto ter ocorrido sem problemas, este “sucesso” foi o resultado de uma inseminação artificial feita com espermatozóides criopreservados. Por agora, esta inseminação artificial ocorreu apenas na subespécie de rinoceronte-branco-do-sul. Também importa a capacidade de Victoria de “engravidar, cumprir a gravidez até ao fim, dar à luz e de amamentar o filho”, explica Barbara Durant. Victoria é uma das seis possíveis barrigas-de-aluguer de um rinoceronte-branco-do-norte, caso se utilize os espermatozóides de um animal desta subespécie que ficaram congelados.

Estima-se que existam cerca de 18 mil animais da subespécie rinoceronte-branco-do-sul – o que faz com que esteja classificada como “quase ameaçada” pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza​. Já os rinocerontes-brancos-do-norte são considerados uma espécie em perigo crítico de extinção. Ainda que se trate de duas subespécies distintas, um estudo publicado em Novembro de 2018 na revista científica Proceedings of the Royal Society B dava conta de que não eram tão diferentes assim. As análises de ADN feitas mostravam que as duas subespécies eram mais parecidas do que antes se pensara, o que aumentaria as hipóteses de sucesso de uma gravidez feita com recurso a fertilização in vitro.

Quantos anos até nascer?

Há anos que uma equipa de cientistas trabalha em laboratório, aliando técnicas de procriação medicamente assistida a investigação na área de células estaminais. Em Julho de 2018, anunciaram que tinham conseguido produzir o primeiro embrião híbrido, com ovócitos do rinoceronte-branco-do-sul e espermatozóides do rinoceronte-branco-do-norte, apesar de ser conhecido o risco e a baixa taxa de sucesso nas transferências de embriões para barrigas-de-aluguer. O objectivo é conseguir fazer nascer um rinoceronte-branco-do-norte puro dentro de três anos – e salvá-los da extinção.

Por enquanto, a equipa do jardim zoológico de San Diego continuará a aperfeiçoar o processo de fertilização in vitro e de inseminação artificial nos rinocerontes-brancos-do-sul e só depois tentará aplicar o processo a outras espécies e subespécies. Outra fêmea da subespécie de rinocerontes-brancos-do-sul chamada Amani está prenha (também através de inseminação artificial) e deverá dar à luz em Setembro ou Outubro, adianta a CNN. Ainda que este seja um passo importante, os cientistas estimam que deverá demorar uns dez a 20 anos até que nasça um rinoceronte-branco-do-norte (pelo menos neste zoo).

Sudan, o último rinoceronte-branco-do-norte macho THOMAS MUKOYA/REUTERS

O último macho da subespécie rinoceronte-branco-do-norte chamava-se Sudan, tinha 45 anos e morreu em Março do ano passado. A sua saúde tinha vindo a deteriorar-se (sofria sobretudo de problemas nos músculos e ossos), o que fez com que a reserva natural queniana de Ol Pejeta tomasse a decisão de o abater. Como era muito velho para procriar por vias naturais, a única esperança de evitar a extinção da subespécie será através de técnicas de fertilização artificial. Numa campanha para angariar cerca de nove milhões de dólares (mais de oito milhões de euros) necessários para ajudar no processo, foi criado um perfil para Sudan na aplicação de encontros Tinder, em 2017. Agora, restam duas fêmeas: Najin, de 28 anos, e Fatu (que é filha e neta de Sudan), de 18 anos.

Retirar ovócitos de Najin e Fatu para juntar à reserva de sémen de Sudan pode ser uma tarefa complicada: o procedimento implica que as fêmeas recebam uma anestesia geral durante duas horas, o que pode provocar complicações no seu estado de saúde.

Najin e Fatu, no Quénia THOMAS MUKOYA/REUTERS

O número de rinocerontes tem vindo a diminuir em África devido à caça furtiva destes animais pelos seus cornos (de queratina, sem base óssea), que podem valer até 50 mil dólares por quilo – mais caros do que o ouro. O caso do Quénia é sintomático: em 1970 havia 20 mil rinocerontes, actualmente são apenas 650, quase todos rinocerontes-negros. Ainda na segunda-feira foram apreendidos 125 quilos de cornos de rinoceronte no aeroporto de Hanói, no Vietname, numa altura em que o país tenta conter o tráfico de animais selvagens.

“O rinoceronte-branco-do-norte foi chacinado por causa dos cornos. O seu fracasso não se deveu a questões evolutivas, mas apenas porque não é à prova de bala”, asseverava em 2018 Jan Stejskal, director dos projectos internacionais no jardim zoológico de Dvur Králové (na República Checa), onde Sudan morou antes de ser transferido para o Quénia. “Se há alguma hipótese de o tentar recuperar, não podemos deixar de tentar.”