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As aves que estão a passar agora por Portugal

Pequenas aves como os papa-amoras, papa-moscas, chascos e cartaxos estão a passar por Portugal. Vão a caminho da África tropical, onde há alimento em abundância no Inverno.

Andorinha-do-mar-Ártica Andreas Tretpe/WikiCommons

Neste momento, largos milhares de aves estão a descer do Norte e centro da Europa — mesmo de zonas tão distantes como a Gronelândia ou Islândia — com destino à África tropical, abaixo da Guiné-Bissau. Todos os anos o fazem, em busca de uma terra onde o alimento é abundante durante os meses frios do Inverno.

São muitas as espécies de aves que migram nesta época do ano. Em Setembro e início de Outubro são, principalmente, as aves pequenas que se alimentam de insectos, como o papa-moscas-preto, o papa-moscas-cinzento, o chasco-cinzento, o cartaxo-nortenho e o papa-amoras.

E são as migradoras de passagem. “Há mais aves a passar do que aves a chegar”, explica Gonçalo Elias, especialista em aves selvagens e responsável pelo portal Aves de Portugal. “As aves que chegam cá para passar o Inverno, e que ficam por cerca de quatro meses, chegam mais tarde, no final de Outubro, início de Novembro.” Tal é o caso dos tordos, patos e limícolas.

Nesta altura, as “rainhas” da migração são as pequenas aves insectívoras que vão a caminho de África. “A maioria destas aves não inverna na Europa porque não há insectos, não têm alimento”, explicou.

Como a viagem até à África tropical é longa, estas aves migratórias fazem uma paragem em Portugal para recuperar forças.

“Normalmente viajam durante a noite, porque podem ficar ‘invisíveis’ para os predadores, porque está mais fresco e há menos vento”, acrescenta Gonçalo Elias, que observa aves selvagens há 30 anos.

Além disso, se migrassem de dia, quando teriam tempo para se alimentar? “É que estas aves, ao contrário das andorinhas, não conseguem capturar insectos em voo. Por isso, migram durante a noite e, durante o dia, procuram zonas de alimento.”

Podemos ver estas aves um pouco por todo o país, desde o interior ao litoral. Estão a alimentar-se para repor energias e acumular reservas de gordura, cruciais para seguir viagem.

Por isso, Setembro é um dos meses mais interessantes para fazer observação de aves em Portugal. É o pico das migrações. “Há migradores de passagem que estão a atravessar Portugal com destino a África, a aparecer por todo o lado”, acrescenta Elias.

Depende das espécies, mas, no geral, as migrações de Outono estendem-se de meados de Agosto a Outubro, com um pico em Setembro e início de Outubro. “Cada espécie tem o seu calendário. A felosa-poliglota passa em grande quantidade em Agosto mas o papa-moscas passa mais tarde, em Setembro.” Muito depende do local de partida das aves: quanto mais longe, mais tempo as aves demoram a chegar e mais tarde passam por Portugal.

As migrações de Outono são também mais interessantes do que de Primavera, porque há mais aves em trânsito. “Agora temos os juvenis que nasceram este ano.” Além disso, as rotas usadas pelas aves no Outono passam mais por Portugal do que na Primavera.

Uma estratégia de vida

Os passeriformes insectívoros que estão a passar em grandes quantidades por Portugal podem fazer paragens de um ou de vários dias. Há mesmo aves que podem ficar por uma semana ou mais a alimentar-se e a acumular gorduras. “Isto permite-lhes voar vários dias sem comer, quando tiverem de atravessar o deserto ou o mar, por exemplo”, explica Gonçalo Elias, que dá o exemplo do chasco-cinzento. Esta ave nidifica na Islândia e Gronelândia e tem de voar três dias de seguida para atravessar o oceano Atlântico, só parando no Reino Unido ou na Península Ibérica.

“As aves estão preparadas para períodos de privação de alimento, até certo ponto.”

Muitas vezes, o esforço é demasiado grande. “[À noite,] muitas destas aves, especialmente os juvenis, não sabem se estão no mar ou em terra e perdem-se no oceano. É frequente pousarem nos barcos que navegam as águas, esgotadas. Nem todas chegam ao destino.” Especialmente em períodos de mau tempo.

Mas se os riscos da viagem são tão grandes, porque não ficam as aves migradoras todo o ano em África?

Segundo Gonçalo Elias, podem existir duas explicações. Uma é que “em África podem não ter condições de fazer ninho para se reproduzir”, estando os melhores locais já ocupados pelas aves residentes. Outra explicação será o facto de “em África não haver abundância de alimento todo o ano”, dependendo da estação seca e da estação húmida. Além disso, se ficassem em África, estas pequenas aves teriam mais uma vez de competir com as aves residentes.

Por isso, a estratégia é regressar à terra onde nasceram, na Europa, “terra da abundância” nos meses de Primavera e Verão. “Há aves do Árctico que se especializaram em explorar os insectos que lá existem. Mas só o podem fazer durante quatro meses por ano. Por isso vão para África no Inverno. Mas, quando regressam, têm tudo para elas, não têm concorrentes”, explicou.

Cada espécie tem uma estratégia, a mais favorável à sua sobrevivência. Para muitas aves, a migração significa que conseguem aproveitar ao máximo os recursos de cada região – ainda que tenham de viajar milhares de quilómetros, todos os anos.