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Outro 25 de Abril (mas ainda em ditadura)

Foi uma coincidência: o dia em que ocorreu a primeira reacção nuclear em cadeia em Portugal foi a 25 de Abril, mas de 1961. O país vivia em ditadura e as purgas políticas na universidade tinham feito razias.

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Faltavam 13 anos exactos para o 25 de Abril de 1974 quando se conseguia fazer a primeira reacção nuclear em cadeia do país. Em plena ditadura de António de Oliveira Salazar, o reactor nuclear português começava a funcionar e o país tornava-se o 35.º a ter este tipo de tecnologia.

Os trabalhos para pôr o reactor a funcionar tinham começado no dia anterior, 24 de Abril de 1961, por volta das sete e meia da manhã. O físico António Ramalho era o responsável pelo reactor, projectado e fornecido a Portugal pela empresa norte-americana AMF Atomics (uma divisão da American Machenery and Foundry, que fabricava equipamentos de bowling, bicicletas, iates, entre outras coisas, e a certa altura deteve as famosas motorizadas Harley-Davidson). Mas uma avaria no sistema dos registadores e amplificadores levaria o dia todo a resolver. Apenas na madrugada do dia seguinte, 25 de Abril, já quase às duas da manhã, se retomariam as tentativas de obter e manter uma reacção nuclear em cadeia.

No núcleo do reactor havia várias barras de combustível – urânio enriquecido –, que eram bombardeadas por uma fonte de neutrões. Quando um desses neutrões era absorvido por um átomo de urânio, dava-se a cisão deste átomo e ocorria a libertação mais neutrões. O objectivo é que os neutrões libertados cindissem sucessivamente o núcleo de outros átomos de urânio, para que essa reacção — em cadeia — se mantivesse sozinha. “O sistema começa connosco a fornecer neutrões. Mas tem de funcionar por si próprio, sem que se forneçam neutrões”, explicava António Ramalho ao PÚBLICO em 2011, por altura dos 50 anos do reactor.

Aos poucos, naquela madrugada, iam-se fazendo descer barras com o combustível nuclear até a uma grelha colocada no fundo da piscina (além de servir de barreira às radiações, a água era essencial para abrandar os neutrões e permitir que ocorresse a reacção em cadeia). Sempre que se encaixava mais urânio na grelha, o nível de neutrões subia um pouco. Ao mesmo tempo, era preciso ir controlando essas reacções, por isso também se iam subindo ou descendo barras de comando feitas de um material que absorve os neutrões.

Passaram a noite a pôr barras de combustível no núcleo, a movimentar as barras de comando, a medir os neutrões que resultavam das cisões, a fazer previsões da quantidade de urânio necessária. Era preciso determinar a massa crítica do urânio – ou seja, a quantidade de urânio que manteria a reacção em cadeia. “Não sabíamos que quantidade iríamos precisar”, dizia António Ramalho. “Começa-se com uma quantidade mais pequena e vai-se adicionando. Por cada adição, vamos ajustando as barras de comando.”

A ardósia (que se perdeu) com os registos da primeira reacção nuclear em cadeia do país DR

Já de manhã, pelas 9h50, começou a dar-se a reacção nuclear em cadeia. A quantidade de urânio que teve de ser usada ou o número de neutrões que ia sendo detectado, até se atingir a reacção em cadeia, iam sendo registados a giz num quadro de ardósia, pelos físicos Frederico Carvalho e Cândido Marciano da Silva, à época dois jovens. Numa fotografia da ardósia vê-se contagem dos neutrões medidos por dois detectores (ou canais) e a massa crítica que veio a ser necessária. Quase 3,6 quilos de urânio.

“Colocaram-se debaixo da escada que dá acesso ao reactor; se estivesse num barril de pólvora não estava melhor, mas estava lá, a medir o fluxo de neutrões junto à piscina e a transformar aqueles números em coisas inteligíveis para a mesa de comando. Quer dizer, tinha de fazer umas contas sobre os valores observados e depois ia apontar na ardósia, que já desapareceu, o nosso quadro preto que, como vocês vêm, é de alta tecnologia da época”, recordou Cândido Marciano da Silva na cerimónia dos 50 anos do reactor nuclear português, que originou um número especial da Gazeta de Física.

Dois dias mais tarde, a 27 de Abril de 1961, decorreu a inauguração do reactor e das instalações onde se localizava, o Laboratório de Física e Energia Nucleares (LFEN), na Bobadela (concelho de Loures). A formalidade da cerimónia incluiu a presença do então Presidente da República, o almirante Américo Tomás, e de personalidades portuguesas e estrangeiras.

Nas comemorações dos 50 anos, Cândido Marciano da Silva quis falar do contexto político-científico em que apareceu o reactor. “No passado, a intervenção do Estado sempre se caracterizou por critérios mais políticos do que realmente científicos. Diria mesmo que, no caso da física nuclear, levaria quase a apagar completamente o esforço de investigação que havia no país e a rede de contactos existente no final da década de 40”, recordou o físico, referindo-se às purgas políticas nas universidades pelo Estado Novo. “Todo esse grupo de investigadores foi expulso do país, das universidades portuguesas, por decreto, e as universidades viram-se privadas de uma contribuição importante para a ciência, o que veio a dar maus resultados. Passados uns anos, o Governo apercebeu-se de que [afinal] não podia ignorar um programa na área nuclear”, acrescentou Cândido Marciano da Silva.

Construção das instalações do reactor nuclear português, na Bobadela, concelho de Loures DR

“Durante os quase 60 anos da sua existência, o reactor e as infra-estruturas associadas deram uma contribuição inestimável para o progresso do sistema científico e técnico nacional”, recorda hoje Frederico Carvalho. “Isso transparece no número de especialistas que aí foram formados e vieram a espalhar-se por outros centros de investigação no país, nomeadamente universitários, que nos anos 60 eram incipientes ou mesmo inexistentes em parte devido às políticas de exclusão de cabeças pensantes que marcou o regime”, acrescenta. “O reactor deu ainda muito ao país ao longo dos 40 anos que se seguiram à revolução.”

Uma miragem

Desde a decisão de comprar um reactor nuclear de investigação – autorizada em 1957 pelo Conselho de Ministros – até à primeira reacção nuclear em cadeia no país, tudo aconteceu de forma muito rápida. O objectivo era aprender a dominar a tecnologia nuclear, para um dia se avançar para a construção de centrais nucleares de produção de electricidade.

No início da década de 1950, já havia interesse no uso da energia nuclear para fins pacíficos em Portugal, como uma nova fonte de energia alternativa aos combustíveis fósseis e à hidroelectricidade. E o aproveitamento das reservas de urânio no país fazia parte desse interesse. Logo em 1952, criou-se a Comissão Provisória de Estudos de Energia Nuclear. Dois anos depois, surgiu a Junta de Energia Nuclear (JEN), na dependência directa da Presidência do Conselho de Ministros, ocupada por Salazar. Nesse ano de 1954, começava a funcionar perto de Moscovo o primeiro reactor nuclear para produção de energia eléctrica.

Em 1955, a JEN e Salazar aprovavam a criação do LFEN, cuja construção começou dois anos depois. Estudar minérios de urânio e especializar pessoal na operação de reactores nucleares eram alguns dos seus objectivos, além do ensino e da investigação. Também se descobriram naquela década reservas de urânio na Beira Alta e no Alto Alentejo – e no LFEN chegou a construir-se uma instalação-piloto para o fabrico de urânio metálico a partir dos minérios de urânio portugueses.

Foi ainda criada a Companhia Portuguesa de Indústrias Nucleares, uma parceria de várias empresas que existiu entre 1958 e 1964. Numa memória descritiva desta companhia criada pelo físico Armando Gilbert – A Energia Nuclear na Produção de Electricidade em Portugal, de 1961 – referem-se nove estudos técnico-económicos sobre a construção e exploração de centrais nucleares em Portugal. E no livro O Reactor Nuclear Português – Fonte de Conhecimento, de Jaime da Costa Oliveira (2005), José Veiga Simão, consultor da JEN entre 1959 e 1963, fala dos planos de construção de uma central nuclear luso-espanhola junto ao Guadiana, dizendo que a Empresa Termoeléctrica Portuguesa e a Companhia Sevilhana de Electricidade chegaram a entregar essa proposta, em 1967, aos governos dos dois países.

Em 1973, a produção de energia eléctrica por via nuclear constava no relatório preliminar do IV Plano de Fomento para 1974-1979, investimentos a médio prazo no país durante o Estado Novo. Dizia-se que estavam quase prontos os estudos realizados desde 1968 sobre o fabrico próprio de combustíveis nucleares e a instalação de centrais, tendo-se concluído que seria competitivo incluir as centrais nucleares na rede eléctrica até ao final da década de 70.

A revolução não pôs fim aos planos nucleares. Em 1976, era Mário Soares primeiro-ministro, no programa do governo constava o “lançamento de um programa nuclear aproveitando o urânio nacional”. Para tal, foi nomeada nesse ano uma comissão técnica, que entregou no final de 1977 o documento Centrais Nucleares em Portugal: Projecto de Livro Branco, coordenado pelo físico Jaime da Costa Oliveira, investigador do LFEN. Nessa altura, já decorriam também os trabalhos preparatórios de uma central nuclear em Ferrel (no concelho de Peniche) – e a população marchou contra essa construção nesse local a 15 de Março de 1976.

Em 1979, a JEN seria extinta, o LFEN e o seu reactor acabaram integrados noutros laboratórios do Estado e, desde 2012, parte dessa herança passou para a alçada do Instituto Superior Técnico.

O problema é que os grandes laboratórios públicos de investigação foram perdendo força, considera Frederico Carvalho. “Um reactor nuclear é uma infra-estrutura que exige para que dela se tire proveito recursos humanos e financeiros adequados. No caso do Reactor Português de Investigação, esses requisitos nunca foram preenchidos e a situação agravou-se nas últimas décadas do século passado e continuou a agravar-se até hoje. Transformou-se numa relíquia que só passaria a ter de novo a importância e utilidade que teve se nele fossem investidos consideráveis meios financeiros e retomada a admissão de quadros científicos e técnicos”, diz.

 A construção de quatro centrais no país ainda foi defendida no Plano Energético Nacional de 1984, mas a ideia foi então rejeitada pelo Governo. A última tentativa – falhada – para construir uma central nuclear em Portugal surgia em 2006, pelo empresário Patrick Monteiro de Barros. A opção nuclear no país tornou-se uma miragem cada vez mais distante.